Livros de Areia

terça-feira, 31 de julho de 2007

What else is new?

A recente notícia de que um admirador ferrenho de Jane Austen terá enviado, sob pseudónimo, excertos de romances copiados da obra de Ms. Austen a 18 editoras, e da subsequente rejeição por 17 delas (apenas uma terá topado a coisa), é interessante, sobretudo porque visa directamente as editoras no que à sua "memória de ofício" diz respeito. Os editores não têm de ser, obrigatoriamente, eruditos em literatura (para isso pagam os serviços de consultores), mas, se não se perdoaria a um editor de jazz não reconhecer que os solos de trompete da sua nova "estrela"estão todinhos no Kind of Blue, é também difícil não receber com um sorriso de alguma desconfiança esta displicência por parte de duas mãos cheias de editoras literárias de topo.
Ainda assim, David Lassman (o autor da "proeza") não fez nada de novo. Na década de 1970, Chuck Ross foi bem mais mortífero na picada, tanto mais que a deu com tácito acordo com um autor de nome... Jerzy Kosinski. Tentanto provar os preconceitos das grandes editoras contra autores sem nome feito, Ross dedicou-se à "experiência Steps": em 1975, enviou excertos deste livro de Kosinski, e em 1977 voltou à carga, desta vez seguindo o conselho do próprio autor e enviando TODO o texto do livro. Resultado: uma rejeição massiva, incluindo da própria editora que, em 1969 (menos de dez anos antes!) lançara o título no mercado...
P.S.: Luís Filipe Silva tinha já, num comentário a um post anterior, referido uma outra fonte para a mesma história.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Rum doodling


O diário de viagem de Rhys Hughes pelas terras de Espanha é simplesmente imperdível. A verdadeira fleuma e o wit britânicos na face das adversidades geográficas e climáticas, a fazer lembrar um "clássico" perdido do humor british que nos foi recomendado pelo próprio Rhys, e que é um dos seus livros de cabeceira (na falta de cabeceira, de rocha junto ao saco cama): The Ascent of Rum Doodle de W.E. Bowman. (Na foto, Rhys lendo em Xanthos, Turquia, algures entre o século XX e o XXI).
P.S.: O título deste post foi criado segundo os ditames da escola rhysiana de títulos de posts.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Na Barata...



..., hoje à tarde. A promoção está já à vista na montra virada para a Avenida de Roma. Obrigado à Cristina Ferreira e a toda a equipa da Livraria Barata.

Em falta

Ainda não tínhamos feito aqui a nota a um novo e belo blogue de João Ventura, O que cai dos dias: excelente visual e uma cuidadíssima escolha de textos.

O regresso do Senhor K.


Kosinski de novo nas livrarias portuguesas (e em venda directa no nosso site, como é óbvio). Continuamos apostados em pôr este autor de novo no mapa, lançando os seus livros concisos, ácidos, inteligentes e desconcertantes num mercado saturado de escapismo. Como gotas de limão na gordura, esperamos.

Aí está Chance para vosso deleite. O nosso próximo título deste autor será Passos (Steps, National Book Award de 1969), a sequela não-oficial de O pássaro pintado: o rapaz, feito homem, leva os seus fantasmas da Polónia para a América.
© 2007 Livros de Areia Editores Lda. / Design: Pedro Marques

Varinhas mágicas

A poucos dias do lançamento do último(?) volume da saga Potteriana, é difícil não reconhecer o esmagador poder com que esta série de livros tem tiranizado todo o sistema de comercialização de livros na última década. Juntamente com os livros de Dan Brown, este opus de J.K. Rowling moldou a face da procura e as estratégias da oferta.
Não sendo um leitor ou apreciador da série (e apesar de ter gostado muito do documentário J.K. Rowling: Harry Potter and Me da BBC, que me fez pensar que a série seria até bem mais interessante sem o hype mastodôntico à sua volta, dadas as qualidades da personalidade da autora, o seu inesperado domínio do desenho e os seus mais do que aparentes fantasmas no armário), esta tirania é-me sobretudo pesada na qualidade de produtor de livros, que terão necessariamente de penetrar esses circuitos comerciais, obstruídos agora pelo tráfego de dragões e quimeras voadoras. Por mais longe que nos sintamos do fenómeno, é impossível não sentirmos esse obstáculo.
E senti-o precisamente há uns tempos, quando, após o envio de alguns dos nossos títulos como amostra, procurei chegar à fala com o responsável pelo "produto livro" (e apenas este produto, atente-se) de uma grande superfície. Após conferir que os livros não tinham atravessado esse vasto hiato entre a secretária do correio recebido e o seu gabinete ("mas pode sempre enviar outros, ao meu cuidado"), a conversa rumou finalmente ao assunto. E quanto a este, havia pouco a conversar. Sensivelmente agastado pela proliferação de editoras e de livros, o responsável manifestou-se indisponível para a simples de tarefa de aferição da qualidade do produto pelo qual era responsável ("se tivesse de ler livros, não fazia outra coisa"), cortando uma resenha dos títulos que achávamos passíveis de estarem à venda numa grande supefície com a pergunta: "algum dos vossos títulos vende tanto como o Harry Potter?"
A essência desta argumentação não é, creio, e infelizmente, apanágio de responsáveis pela compra de livros de grandes empresas. O paradoxo aqui encerrado – um vendedor que se queixa da abundância do produto de cuja venda depende o seu negócio – é um sinal evidente da incapacidade dos sectores da revenda para diversificarem e enriquecerem a oferta, face ao filão monotemático que tem, qual maná, alimentado toda a indústria. Terá sido este o maior efeito da varinha mágica de Potter: a multiplicação do pão, e apenas do pão (esquecendo o peixe e o vinho, mas com alguma dose de manteiga de amendoim pelo meio, dado o público alvo), criando uma dieta rica em hidratos de carbono e gordura mas à qual falta a fibra que permite ao revendedor ser proactivo e antecipar e explorar filões alternativos: em suma, que lhe permita ser o que se supõe que deve ser. O resultado: vendedores que só querem vender o que já foi vendido aos milhares por outros e que se queixam do facto de terem de usar a inteligência comercial de que são supostamente munidos para seleccionar entre a vasta oferta que é o sustento e a justificação do seu emprego.
Se unirmos esta monomania temática à crescente amnésia dos revendedores (leia-se atrás a série de posts sobre a "descoberta" das edições de bolso) e à voraz concentração de editoras independentes sob a alçada de grupos de media pouco habituados a vozes independentes ou dissonantes, que mercado teremos a curto prazo?
(PM)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

A Caminho

Quase na mesma altura em que um ex-membro do Comité Central do PCP conta (e auto-edita) a sua odisseia ideológica rumo aos antípodas do espectro partidário, a editora Caminho é comprada pelo mesmo grupo que detém a TVI, outrora o canal "oficial" da igreja católica portuguesa. E quem disse que o mundo da edição em Portugal era monótono? Estando onde estamos, o mais certo é só daqui a uns 10 ou 20 anos termos um relato fidedigno e exaustivo desta autêntica revolução no mercado editorial nacional. Esperamos com ansiedade.

terça-feira, 17 de julho de 2007

O caminho

N'A Terceira Noite, Rui Bebiano aponta o caminho que, como atrás e aqui ficou dito, a crítica/reflexão sobre os livros editados em Portugal deverá trilhar nos blogues. Com textos desta qualidade, o paradigma do "no blogue não interessa" passará à história.

terça-feira, 10 de julho de 2007

O Livro e o Bolso



E seria intessante confrontar esta nova vaga de colecções de bolso com estas afirmações da responsável pelas compras da FNAC ao Diário de Notícias, há pouco mais de um ano, nas quais se pintava um retrato negro do estado do livro de bolso em Portugal, em TOTAL contraste com o panorama estável e até ascendente nos outros países da UE. Ou seja: uma nação que nunca teve dinheiro para livros hardback e aprendeu a ler com livros de bolso desde os anos 1940, dá-se ao luxo não só de os desdenhar como de se esquecer do que eles lhe deram. Terá a situação mudado em 12 meses?

No princípio, era...



"No princípio, era o caos. Depois, no ano da Graça de 2007, 3 ou 4 editoras descobriram (som de trombetas)... o livro de bolso! Sim, um livro de pequeno formato, de preço acessível e de conteúdo genérico (os clássicos e assim)!" "Uau, avozinho! Isso é fantástico! E depois?" "Depois..." (scratch de um disco a ser arrancado do prato)
Não. Com o devido respeito, as honorabilíssimas editoras que ora lançam colecções de bolso não descobriram nada de novo, apesar do buzz nos media e nas empresas que se dedicam à comercialização de livros, que devem ter do seu público-alvo a imagem de um adolescente amnésico. Desde a revolução iniciada por Allen Lane na Penguin em 1935, que se editam paperbacks baratos um pouco por todo o Mundo, e Portugal não foi excepção. TODA a cultura livresca das sucessivas gerações de portugueses se fez à volta deste tipo de edições. Permito-me citar aqui um texto de João Bicker, da Fenda, acerca deste recente fenómeno:

"A edição em livro de bolso tem uma tradição em Portugal de que esta iniciativa é devedora, com exemplos tão notáveis como a colecção 'Três Abelhas' iniciada nos anos quarenta por José Cardoso Pires e Victor Palla, a coleccção Unibolso, com um catálogo notável e que, em tempos bem mais difíceis para a cultura do que o nosso, fez chegar a grande literatura nacional e internacional a uma faixa muito alargada da população. Como fez a colecção Miniatura, de Livros do Brasil, que editou 400 títulos. Como o fizeram as colecções Livros RTP, Livros de Bolso Europa-América (no seu início) e as colecções de bolso dos Estúdios Cor, e da Portugália, e da Ulisseia e ainda a Biblioteca Arcádia, para referir apenas algumas. Assim, a iniciativa vale porque se inscreve nessa tradição e não pela sua singularidade.
Isso é que deve ser o seu motivo de orgulho."


Mais uma vez, quando a edição e a memória colectiva andam desligadas...
(PM)

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Uma história que falta II


Um leitor atento fez notar que a autoria do post do blogue
A Origem das Espécies
a que se aludia na nossa anterior postagem seria, não de Francisco José Viegas, mas antes de Manuel Alberto Valente, pois, de facto, são essas iniciais – MAV – que assinam o aludido post. Seja como for, o conteúdo deste transcende o inocente imbroglio: quem quer editar a partir do "baú" (onde estão escritores e obras em domínio público e outros, já esquecidos, à guarda de agentes ou testamentários), e quem o quer fazer bem e com discernimento, esbarra nessa espessa neblina que cobre tudo o que foi publicado há mais de 10 ou 15 anos. As editoras que fecharam entretanto não deixaram catálogos da sua actividade (ou, se os deixaram, também eles se evaporaram pelos alfarrabistas), e as editoras que já editavam há 40, 50 anos ou mais, não possuem, nos seus arquivos online, o registo de edições dessa altura.
Isto deixa-nos, às vezes, com a sensação do astronauta naquele filme do Robert Altman, que, eufórico, e acabado de chegar à Lua, se prepara para espetar a haste da bandeira americana quando descobre os destroços de uma nave soviética...

sábado, 7 de julho de 2007

Uma história que falta

Este post de Francisco José Viegas é bem mais importante do que aparenta. No que à praxis diária de um editor diz respeito (sobretudo, um editor sem uma equipa de "consultores" disponível), a história das edições de um determinado título ou de um determinado autor é, não apenas, um indispensável recurso
(e valha-nos Santa Porbase, via Biblioteca Nacional), como também uma necessária e urgente fonte de inspiração e cotejamento. Passámos pelo mesmo quando editámos
O pássaro pintado
de Jerzy Kosinski, e um recente namoro a outro autor esquecido volta a fazer-nos mergulhar nesse único arquivo disponível: o das Bibliotecas. Os livros definem-se face a dois sustentáculos temporais: o do presente/sincrónico e o do passado/diacrónico, sendo que a edição de um título/autor que desconheça a sua anterior evolução anda coxa.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Ainda corre tinta


Depois de Sérgio Almeida no Jornal de Notícias, de Filipe d'Avillez na Os Meus Livros e de Hugo do Vale na Magazine Artes, é agora José Guardado Moreira que constata o óbvio na Actual do Expresso. Óbvio, para quem leu, claro está: que Criaturas da Noite é a pulga atrás da orelha de que todos precisamos. Está à espera de quê para ser mordido?